Falo em tua boca um nome
sujo trêmulo proibido
que ressoa em teu corpo lago
como pedra que se atira
em espelho d’água
À margem do teu desejo
brinco animal puro
mergulho fundo
e solto meu cardume
na liberdade dos corpos
Quando se lê Manuel, gente se árvore
chega brotar passarinho
na cuca
e caramujo
na alma
Trilha aberta na mata por palavra
pra ouvir o silêncio da pedra
Deita grama no verde
pra ver céu
riscado brilhoso
de lesma
Um rio que passa atrás dos olhos
Manoel é de barros
eu sou menos
sou de asfaltos
De cada lado um monte:
cada casa uma janela
cada janela uma visão
cada visão um horizonte
cada horizonte uma ilusão
Nas cores dos varais
a ilusão escala
em notas musicais
Na cidade de metais
forjados
um bebê dorme
no olho do furacão
a espera do dia que nunca
nasce
Bom quando acordo e te celebro
num bocejo longo
Um livro com página marcada
acima da pilha de músicas
espera
estante
Ruídos rompem a impressão:
talvez uma máquina que passa lá no longe
uma voz intrusa que voa além muro
um ou outro animal qualquer que se manifesta
mas é ao silêncio
denso e caloroso silêncio
a quem entrego toda a minha atenção
Atenção que rápido se dissolve
nos olhos fechados
e morre sobre a cama
num cochilar do corpo ermo
Sucessões de imagens se revezam
correndo pelos sentidos fatigados
de mundo
Nada à minha volta dizendo
as horas
ou qualquer outra obrigação
de balcão
clerical
A solidão preenche toda a existência
fazendo dos deuses meros humanos
um bando de inúteis
Filósofo com os pés
reinventou o calcanhar
Na bola-de-aço da ditadura
deu uma direta já
que foi na forquilha do arqueiro verde
e venceu o calcanhar-de-aquiles
com a democracia
Os pré-socráticos o admiraram
os socráticos o comemoraram
e os pós-socráticos que o sigam
não é todo século
que nasce um craque
nos vários campos brasileiros
Em memória... (1954-2011)
I
O vento maternal
penteia
os cabelos
da árvore menina
II
O Beija-flor
lambe o íntimo
da flor
no jardim
E o Sol que passeia
incandescente
tapa os olhos da
pequena Terra
III
O vento corre verde
na grama úmida
e se deita
à margem do tempo
IV
Chove na fauna em fúria
enquanto o caramujo
ri no sofá
Minha felicidade mora
entre tuas pernas
compasso aberto que circunda
a lua em delírio
Constelação em gozo
de gâmetas cometas
que cruzam teu universo
em contração
A mulher-homem
devora entre as engrenagens
o macho-alpha
que delira na dúvida
enquanto as crias
embriagadas no chiqueiro
criam asas de anjo
decaído
Na selva dos símbolos
pagãos
crias, caças e caçadores
confundem-se
e todos morrem
famintos
O nome de um morto na placa dá nome à praça
enquanto espero de costas
para o mundo
Afinada a garoa soa como orvalho noturno
em meus cabelos serenos
enquanto a multidão passa
como um rio de vontades frustradas
que segue para lugares
aonde o mar não está
A sinfonia das coisas
embala o berço dos pedintes
vigiados pela dó
pelas pombas sujas
pela coerção
A mesmice das cores se espalha
pelos becos dos olhos
e não te enxergo na imensidão
da cidade difusa
Por onde você anda...?
“O amor é fogo que arde sem se ver...”
disse o poeta
que não terminou de dizer:
que o amor é fogo que nasce sem se ver
que o amor é fogo que se espalha sem se ver
que o amor é fogo que queima sem se ver
que o amor é fogo que abranda sem se ver
que o amor é fogo que se apaga sem se ver...
Quando se vê
o amor que era fogo
agora é só cinzas...
Por que deita-se em tantas camas
e a mim se mostra tão hostil?
De quem te explora, é eterna mucama
e ainda canta “longe vá temor servil”
Eu que levo a bandeira com flama
sucumbo a vontade do covil
Tem que mudar esse panorama
porque ser patriota no Brasil
é amar a quem não te ama
No céu de São Paulo
nuvens chumbo prenunciam
a queda
que arrasta tudo alaga:
esgotos gastos
coletivos esgotados
casas ocas poços
restos fossas pastos
fossos poças
paços largos
logradouros
lugares comuns
Lago imenso lodo
onde Tristeza e Tragédia nadam nuas
sincronizadas
entre ratos-golfinhos
dejetos restos
e rostos
O trovão grita
rasga o ar:
Corre! A água é suja
imunda inunda
tua hora vai chegar
A sinfonia continua
no mesmo (des)compasso
até que a última gota
caia
Fiz uma poesia
escrevi-a num bilhete
vermelho amor
plantei-o num ramalhete
de flor
Ficou bonito
o presente
que teve um único intuito
latente:
usar o meu cacete!
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Lá fora
na depressão da rua
só a chuva
fraca fina esfria
Relento
Aqui dentro
a solidão
afia a faca fria
na alma fraca
Que logo abra
o tempo
A subida do sol
é íngreme
saída
Contento
Norma escreve regras
linha a linha
é exigente
Mesquinha
vai morrer sozinha!
-----
Entre a sorte
e a morte
a contagem é curta:
cinco letras
-----
O trem está de passagem
pra correr viagem
precisa só de uma linha
-----
Sistema
de gestão
tema
indigestão
-----
O trem no trilho
não perde horário
usuário
No Dia de Finados
os homenageados
permaneceram deitados
Cândida quer um
homem cândido
Ninguém se candidata
-----
Depois de amar
há um elo
Amarelo
-----
Ver o sorriso no olhar
é o mesmo que estar
em frente ao mar
Para quem
mente
verdade
não é
vertente
Parabéns a quem difere:
vontade de fera
de
vontade que fere
A ferida fere fundo
o ferido
até que ferrenho
o ferido
fira fundo a fera
que o feriu!
O MundoMundano se prepara para lançar seu segundo livro de contos, crônicas, poesias e afins, e eu tenho a honra e felicidade participar dessa segunda edição.
Todos estão convidados para a festa de lançamento.
Arregalo meus olhos
para ver os teus fecharem
e abro minha boca
para calá-la na tua
Despidos de ser
num atrito carnal e primitivo
voltamos a algum tipo de origem
Duas crianças que brincam
e constroem um corpo
massa de modelar
Um Pastor de pé
Um fiel de joelhos
Um cristo na cruz
Credo
Um barraco
pegou fogo
muitos morreram
Só a
Miséria
continua viva
Nas esquinas da minha pátria
camelôs vendem
o dropes da amargura
por uma módica quantia:
a vida
O doce
produto
que se dissolve
na boca
limitasse a
um fechar de olhos
um pacote a prestação
um auto
um instante
E o sabor
extra-forte
da bala
não abala
a estrutura
Adquirir a própria vida
custa
(meu) caro
O inconsciente furtou
um objeto
da estante
Sou grato
A noite sem cógnitos
é branda
talvez eu
até
durma
Sobre a fofoca:
VII
Fofoca voa
de boca para boca
até engasgar
VIII
falar e falar
falar só por falar e
morrer pelo bico
IX
Língua de cobra
que não para na toca
o gato come
Exibida e brilhosa
Foi o brilho úmido
rosa
dos teus lábios
que me fez colocar
teu nome na lua
Como um cometa incandescente
passou e deixou
dentro de mim um universo
escuro
vazio
infinito
Os astros se revezam
no tempo
para um dia, quem sabe
se alinharem novamente
Um sotaque guarda uma lembrança
que voa, como o cantar de um passarinho...
Em chão pavimentado
não se planta semente
porque nada natural pode nascer ali
Toda lembrança guarda uma morte
e a morte vive num tempo que não volta
Nunca mais seremos crianças
Bebo para ver o mundo
pelo fundo
do copo
Telescópio
Se minhas guerras
sou eu quem as crio
por que não as venço?
Talvez porque as armas
da qual preciso
nunca as penso
Entrincheirado e atento
avanço mais um linha
inimiga
que invento
Minha
guerra nunca terá
(um) fim
I
A seca é um lago seco na alma
Na terra dura brota palma
Planta que o gado não come
e morre. Só, vive o homem
II
O cheiro de seca me imprimiu um desejo:
mesmo de frente para o mar
não é o mar que vejo:
vejo a seca indo embora
logo pela aurora
no canto do galo
num abrir de flor
Num barco sem velas, sem norte
só com o desejo, navego a deriva
sem sorte, guiado pelas estrelas
leitosas ladies da noite
Amar moroso no mar revolto
a correnteza me arrasta à areia
a água está viva entre as fendas
frestas e pedras, carne
Vênus brilha e baila
suores salinos misturam-se
As Três Marias sacrificam astros menores
bacantes rasgam o céu e bebem seu sangue azul
meu corpo flutua entre espumas
pelas mãos dos mitos é oferecido
e entregue às sereias e aos signos
que ao nascer do sol se deitam
em meu peito
Anoitece novamente
e os sinais dos rituais resplandecem
na imagem do Cruzeiro
ao sul de nossos pensamentos
O cheiro doce e úmido da pele tua
nua que espera o toque quente
rente e íntimo que aumenta o ritmo
num átimo, do corpo, da pulsação
Fricção animal sobre a cama
dama da sociedade que revira puta
luta com o macho pelo prazer
fazê-lo acontecer no quarto
O ato final do filme, o gozo
no fosso dilatado e úmido
unido ao falo agora contraído
caído, satisfeito, em paz
Jazem os amantes na oca oca
e as bocas dividem num ataque
o acre gosto contido
nos fluídos, no que sobrou de nós
IV
Nada tenho nessa
Nem terei na que virá
O jeito é viver
V
O rio corre
Nado contra a correnteza
Rio do rio
VI
O coração bate
O corpo corre atrás
A alma voa
Rebeldia Punk
grito suburbano
A cidade não pára
ambiente desumano
Ao que me parece
o pânico prevalece em SP
onde anoitece e aparece
a face de deus na rotina
da pátria amada
do desequilíbrio
Devoro estilhaços calado
o expresso oriente descarrila
Eu ignorado, faminto
um ninguém em chamas
sem medo de morrer, sem valor
Inimigo, homem negro
que bebe demais, sujo
estranho de sangue ruim
um verme, resto de nada
Que tem nojo
que aprendeu a odiar
um homem em fúria
sem nada a perder
pesadelo contra o mal
A noite dome lá fora
amanha será tarde demais
Só a raiva vai nos salvar!
O tempo traça um traço que me traça
destroça, tritura, trinca a trindade
e a traça atroz trucida tênue a trama
que tramo trêmulo: trilha até a taça
Torço tenaz ao tom tonante do astre
teimo em tentar tocar o troféu
Atento ao termino, tento tudo
trato truncado o atrito tribal
intentos sem trégua, sem ternura
Atrativo é a tentativa de triunfo
Tolo, torto na trincheira
me entrego...
O tempo eterno ostenta a vitória
e troça deu troço, trouxa
Termino triste...
atrato na tumba
Um milhão virou troco de bala
parece que nada abala a nação
que vê sua plantação encher a mala
da galinha que, de milhão em milhão
não se engasga, papa um bilhão!
Descaso pleno no plenário
da câmara que perdoou a ladra
que ladrou: “todos aqui são como eu!”
deputados, fariseu por fariseu
todos de rabo preso, pelo voto secreto
garantido imoralmente por decreto
a ave de rapina absolveu
Um horror que nos diz:
é culpada, é!
E chora, a atriz
afia a navalha
degola o país
ganha a batalha
sorri, a meretriz
invencível, Jaqueline Roriz
Será que um dia isso pára?
Corrupção, mensalão, absolvição
acho que já se acostumou a nação
a tomar tapa na cara
e ficar quieta, olhando pela televisão...
(E agora, José?)
Vitória
virgem viva
ventre
veludo
Vulva vadia
vagina valente
veemente volumosa
viscosa voraz
vital
Vaca vulgar
víbora volúvel
vodka vagabunda
valsa vã
varão vassalo
vilã viciada
Vênus
verão vivo
vale verde
vista vasta
viagem voluptuosa
Vinho velho
verso
valor
Vida
A noite se abria no movimento de suas pernas
grossas pecaminosas infinitas
e o brilho morto das estrelas
emolduravam teu corpo lascivo e jovem
Que saudades que tenho da minha puta
Suas mãos corriam até mergulharem
lábios seios sexo
que me exibia liso e rosa carne
querendo quente pulsando
expulsando todo o frio e a derrota
Que saudades que tenho da minha puta
Suas coxas apertavam e espremiam
o gozo
que sobrava em seus olhos
que me mostrava entre os dedos
que lambia satisfeita
que alimentava o pouco que éramos
Que saudades que tenho da minha puta
Que sonora gemia fêmea
que linda contorcia-se fêmea
que satisfeita ofegava fêmea
e enchia meus escravos ouvidos
com sons úmidos de fêmea
Que saudades que tenho da minha puta
Era um mundo construído
e constituído de vontades animalescas
que faziam meu sangue pele correr
percorrer pelos meus rios e mares
até alagar o deserto e o homem que sou
Que saudades que tenho da minha puta
Mas no ordinário passar dos dias
nosso jogo não teve mais vitórias
monótonos sucumbimos ao banal
e derrotados
desistimos do poder lúdico
que proporcionávamos aos nossos restos
O solitário e sujo tempo venceu
Que saudades que tenho da minha puta
que partiu...
Entre panos e apelos
pedidos e peles
peço em teus lábios abios
desejo entre pêlos e entro
Dentro desnudo
mudo quente mundo
rente profundo querer
Crer que posso tê-lo
esparramo em teu pêlo
novelo
meu prazer
A papa pronta no pote prático
O prato alvo no armário
O fogo e o fósforo já não se tocam mais
A geladeira gela conservantes
Mamãe está morta
pede silêncio
e tem pressa
O chão espelho
A diarista eterna
O bicho-enfeite
Crias em suas obrigações
Papai foi enforcado
e balança feliz
acima da multidão
Os carros
As paredes
A tecnologia
As portas fechadas
A família morta
vive
feliz
na imensidão da aparência
Pare
ser de
parecer
Seja já
Sinto que sinto
ódio
algo que não semeio
Meu pensamento norteio:
quanto desse ódio
é veneno alheio?
Falo de pé
ao pé do ouvido
Pelos em pé
Aos teus pés
Troco pés pelas mãos
Pede mais
pedante
Meu amor em pé de guerra
armado com busca-pé
peleja
pela pele já
Mágico
Bonito
infinito
Trágico
Na pulsação dos sons
no sangue que se espalha por veias de luzes
minha vida corre
entre teus movimentos e
deságua
em teus beijos de nicotina
Nada daquilo era
e o que foi, era não
O anjo que pousou
em minha cabeceira
voou...
fêmea efêmera
não passou de ilusão
Bobeira
por mais que pernoite
(amor perdura
manhã na moldura)
todo sonho dura uma noite
Assim
no chão
a sombra
a me seguir
Assombração
As sombras são
assim
a me seguir
como um cão
No chão
No inconsciente
À Betânia
Maria, Maria
o que ela queria
eu já sabia
que era só dinheiro
pra dizer poesia.
A alma fria
não vale um verso
quem diria
de todo universo
logo você
Maria...
Eu falo
em tua boca:
degole!
De gole em gole
engole
nosso mundo
Uma centelha
acende
e a mente
ascende
Uma fagulha
e a agulha
no palheiro
aparece
Parece
que não há prece
que a aprece
A idéia latente
fecunda, desprende
inunda fremente
o papel
o espaço
o tempo
O tempo todo
desejo
beijo beijo beijo
mordo
motejo
depois
fodo fodo fodo
gozo
festejo
O amor morto
descansa em meu peito
feito
do jeito
que o diabo gosta
Sexta cinza
cinza feita de cinzas
Corpus christi
A chama
queima
vela
derrete
deita sobre a tumba
A procissão anda
ora sim
ora não
São João solta
fogos
acende
a fogueira
Cristo desce
da cruz
canta
cantigas de roda
As almas celebram
o não ser mais
A palavra é corpo
todo resto é prótese
A matéria-prima escorre entre os dedos
enquanto a rotina pisa as uvas
que formam o vinho da dúvida
"Se pudesse faria Tudo de novo..."
mas... para que
refazer o que já foi feito?
O Tudo é tão grande
que não abrigada nada dentro
A covardia mora atrás da felicidade
decantada na afirmação
repetida pelas gerações
O tempo não dá trégua
tece a trama
tempera o trópico
tange o tango
tonteia o touro
tapa a tumba
e eu
tento
transo
teimo
tropeço
termino
O tempo
matéria-prima de tudo
escorre por entre as idéias
corre alazão
enquanto escrevo
De que me serve esse amontoado de carne, se sou apenas alma que caminha no tempo atrás de um
[negócio que chamam de evolução?
Sou ferro forjado a força em fogo negligente
Meu sangue corre contra o Sol
Rico de minerais, não dissolve pelos esgotos
não esgota pela orla
e enche de sal a imensidão azul cadáver que chamam de mar
(o desgosto do mar é ter o gosto que tenho na pele)
A escuridão é feita de medo e mito
Como detesto todos eles
Vai Lua, corre logo pelo céu
some
percorre toda essa idiotice infinita e sem sentido
A Noite não me interessa mais
cansei de disputar espaço com outros derrotados
bichos trôpegos que perambulam bebem cantam e...
Quero que definhem a sós, sob a poesia manjada e gasta que o luar inventa e projeta em coisas breves
Quero Dia
luz intensa e agonizante
que suporta a acidez da minha saliva lançada em forma de flecha-letra
chama que corta meus olhos com lucidez incomoda afiada e enferrujada
e racha a pele da minha boca seca pela não realização de pequenos desejos humanos
O animal quase morto que me habita, me mostra os dentes
rosna, urra ensurdecedor em meus ouvidos a dentro
assusta o pessimismo a coragem e aumenta o pânico de meu sistema nervoso e (a)cerebral
já cansado...
Diante do absurdo que é a Vida
a Morte é medíocre
e não me interessa
Regurgito o que acredito ser bom
me acabo com a gula à flor-da-pele em banquetes de nostalgia e solidão
servidos em minhas vísceras pulsando fomes
enquanto passeio pela sombra das pedras erguidas em nome do capital
O capital é uma forca que acaricia meu pescoço bobo sedento de amanhãs
das manhãs de procissões em que cada um é seu mártir
e a ladainha murmurada suplica o perdão dos vícios mundanos
Rezam da boca pra fora; sabem que o amém é um perigo iminente
A faca está no pulso
caminhando febril sobre a veia exposta aos urubus
esperando para ser a única coisa que é
ser faca
e fazer a única coisa que sabe
cortar
e executar súbito a pena capital
no capital
que fez de si seu próprio fim
Penaremos ou brindaremos à distância das tecnologias?
É mais fácil correr a infinidade do tempo que vem
do que dar um passo no minuto que passou
Nada é mais longe e presente do que a lembrança
Um amontoado de lembranças
é isso que a alma é
e o corpo insuportável é o pára-raios que as suporta
Suporta para lembrar que somos trindade
corpo mente alma
(o corpo mente à mente
que mente à alma
e a alma não mente
ela sente
e divide esse sentir com o corpo
que mente à mente
que tudo está...)
Só estou porque penso peno e persisto
insisto em ser
e choro
porque é a única coisa que aprendemos de berço
A lágrima não é o choro
e o choro não é a tristeza
O choro é um soluço corporal
um tipo estranho de vômito
a tristeza é um prego que me mantém crucificado
e a lágrima é uma idiotice que se repete em poemas
O que escorre pelo rosto
é a indignação de estar ali
mergulhado
num lugar onde se detesta
até o pescoço
marcado pela forca
A inquisição começa a partir do momento em que eu Quero
e eu trindade
tento sobreviver a fogueira
que há ao pé da minha cruz
jogando minhas migalhas aos corvos
cantando músicas de cortejo
e expondo minhas intranqüilidades
em versos
Um vagão sem trem
e vazio
Chão baldio
Fora dos trilhos
janelas abertas e esquecidas
sem horizonte
terminam no tempo
Só a arte salva